Sobre o tema – Algumas palavras sobre colonialismo

Roda mundo, roda-gigante
Rodamoinho, roda pião
O tempo rodou num instante
Nas voltas do meu coração
(Chico Buarque, Roda viva)

Colonialismo é uma dessas palavras que nos evoca história. Não uma história qualquer, mas aquela saudosa história de nosso ensino médio, aquela mesma que quando entramos na academia de ciências humanas descobrimos estar, se não equivocada, pelo menos incongruente. É tudo descoberto como um grande teatro de máscaras e assistimos com espanto o baque surdo de cada identidade se chocando contra seu duplo que é, de fato, sua verdade. É assim que descobrimos que invasores viram heróis descobridores e resistentes se tornam selvagens preguiçosos. Assim como são varridas para debaixo do tapete em seu cotidiano imediato, os outros são varridos para debaixo do tapete da memória. Ficam, portanto, no subterrâneo da memória, sempre ali, sempre resistindo, sem nunca cessar sua existência. Assim como no recalque freudiano, repete-se um ciclo infindável de exclusões de algo que deveria ser acessível à consciência e uma necessidade de emergência de sua existência se faz notar por certos traços que não cessam de se repetir. Exclui-se no real, exclui-se no imaginário, exclui-se no simbólico. Tenta-se negar veementemente a existência daquilo que, entretanto, existiu. Esse existente não cessa de tentar emergir. Mas o que é que isso tem com a filosofia?

A filosofia nasce desse movimento estranho de buscar entender as coisas como são. A pergunta já clássica da filosofia – o que é algo? – revela em si uma ávida necessidade do perguntar acerca da identidade de algo e de suas possibilidades de existência. Note-se que a pergunta não evidencia a ignorância sobre o assunto mas, antes, a sabedoria para saber sua lacuna, para saber que algo falta e que, portanto, deveria haver algo onde nada há. O que faz a exclusão? Gera essas lacunas. É precisamente sobre esse pensamento lacunar que incide a filosofia de maneira mais violenta quando busca encontrar no real, e não no discurso cotidiano que o significa, uma resposta.

Colonialismo: memória e resistência busca desvelar precisamente o momento da queda das máscaras da precisão. A precisão é sempre aventada pela forma linear da contação tradicional da história, o que se chama “história tradicional”. Com isso, o dito popular “quem anda na linha o trem pega” (lembremos do trem da história…) assume aqui sua verdade consumada: milhares são atropelados pelo trem que não pára às diferenças e faz com que todos sucumbam a uma visão elevada à categoria de verdade. A pergunta clássica da filosofia – o que é algo? –, quando circunscrita nesse contexto temático visa expor o sangue com o qual a razão escreveu nas páginas da história o seu progresso. Que fique claro que o sangue dos oprimidos inscreveu certo ranço em vários nomes. Ditadura e escravidão estão, hoje, no mesmo lugar que antes os negros e os oprimidos pelo regime militar estiveram.

Cabe à filosofia apontar saídas a esse lugar, de modo que o homem possa reconhecer a si mesmo no rosto do bárbaro que criou. Cabe, portanto, observar que se todo monumento de cultura é também um de barbárie, todo monumento de barbárie também é um de cultura.

U.

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